Este artigo, embora antigo, serve de inspiração para quem pretende estudar sites de notícia, porque mostra diferentes perspectivas de análise. Trata-se de um levantamento dos trabalhos de pesquisa produzidos em Mato Grosso do Sul e que tiveram como foco o webjornal Campo Grande News quando da comemoração dos seus dez anos, em 2009.  O veículo, pioneiro no Estado, completou dez anos em março de 2009 e naquele período acumulava seis pesquisas científicas. Os estudos são de linhas teóricas distintas e cada uma faz apontamentos sobre aspectos diferenciados que, além do resgate histórico do ciberjonalismo estadual, contribuem para discussões sobre jornalismo on-line de uma maneira geral, sem regionalismo. A pesquisa hoje seria muito mais ampla, mas esta fica como registro histórico.

Segue:

Conhecer a história da imprensa é conhecer também um pouco da nossa própria história. Da mesma forma como o jornal traduz as mudanças da sociedade e retrata essas modificações em suas coberturas, a mídia também reflete um pouco dessas transformações coletivas. De todos os modos que a indivíduo tem de ter acesso às informações, a imprensa ocupa o grau mais importante. É ela que acompanha às polêmicas, mostra as mazelas, tem grande alcance…

Mas se o jornal procura, por meio das suas coberturas, registrar seu momento histórico e relatar as mudanças sociais, quem é capaz de analisar esses veículos e o que eles expõem do contexto em que estão inseridos? Quem aponta suas falhas e propõe uma reflexão sobre seu modo de produzir e distribuir essas verdades? Neste universo tão plural de opiniões e “achismos”, as universidades têm cumprido seu papel de entender o mundo e, assim, obviamente, a imprensa se mostra um importante objeto de estudo.

Além de ser referência no mercado, o Campo Grande News também tem merecido atenção de pesquisadores. Por ser o primeiro veículo a dar início à produção virtual de jornalismo em Mato Grosso do Sul, o jornal foi tema de dissertações de Mestrado de pelo menos seis trabalhos produzidos entre 2006 e 2008. Os estudos abordam aspectos distintos do site e têm linhas teóricas independentes, passando pela Teoria da Informação, a Semiótica e os Estudos Culturais.

Essas pesquisas, além de traçarem o perfil deste veículo pioneiro, promovem um resgate histórico da memória do jornalismo on-line em Mato Grosso do Sul, já que até então nenhum outro registro tinha sido produzido. Mais que isso, alguns dos apontamentos, por amostragem, também podem ser usados para refletir a produção da imprensa como um todo, em outros veículos de modelo semelhante em qualquer canto do país, quiçá do mundo.

O conhecimento produzido nestas dissertações assinala um panorama bem amplo da prática da comunicação em rede e aponta possíveis mudanças no modo de ver e fazer jornalismo. Cada levantamento expõe percepções distintas e complementares do ciberjornalismo, representando na figura do CG News, seja no mapeamento dos veículos que atuam produzindo notícias na Internet e sua forma de organizar e gerenciar o conteúdo, no trabalho de Thais Telarose; ou na descrição detalhada do perfil de leitor e suas expectativas, apontados na pesquisa de Lucas Santiago Reino. Ainda no interesse de entender o leitor, mas agora com o foco voltado para o modo como ele é projetado na linha editorial do veículo e como se estabelece para este a construção do sentido do texto numa narrativa fragmentada, como é nos textos do webjornal, há o trabalho, em processo de desenvolvimento, de Rosane Amadori.

Como parte do resgate histórico e, desta vez, mais atento às mudanças de linguagem e inovações propostas nas redações, está o trabalho do pesquisador Osvaldo Ribeiro, que narra como foi a experiência de implantação e organização do único jornal do Estado a ter uma televisão on-line, a TV News. O sistema saiu do ar em dezembro de 2006, mas o estudo serve de parâmetro para entender as necessidades e deficiência deste modelo na rede e ratifica a idéia de que o ciberjornalismo ainda precisa encontrar um modo particular de se expressar, além dos modos tradicionais que já incorporou.

As outras duas pesquisas sobre o webjornalismo sul-mato-grossense que tiveram o Campo Grande News como objeto de análise debruçam-se numa questão intrínseca do modo de produção deste suporte: o tempo. Tão discutido entre estudiosos, profissionais e a própria sociedade, a agilidade e a instantaneidade norteiam as pesquisas assinadas por Alexandre Maciel e Thaísa Bueno. Na investigação de Maciel a necessidade de produção de notas em tempo recorde seria uma das razões apontadas para a prática pouco apreciável do uso, sem apuração, dos releases – textos enviados para as redações como sugestão de pauta e que, via de regra, têm a intenção de enaltecer, divulgar e destacar o trabalho do assessorado, ou seja, não são, necessariamente, de interesse público.

Já no projeto de Bueno, a proposta é descrever os modos de construção do texto que estes jornais virtuais adotam para garantir o efeito de tempo real. Esta pesquisa também discute os riscos e problemas que uma apuração muito rápida pode gerar, principalmente em coberturas de crise. Mostra, por exemplo, que mantendo a premissa da rapidez a qualquer custo, o jornalismo acaba contradizendo algumas convenções elementares da prática, como não noticiar o que não se tem certeza, ouvir e dar voz aos envolvidos no acontecimento, entre outros.

Enfim, com enfoques e teorias diferentes, cada trabalho contribui para um entendimento profundo do modelo de ciberjornalismo praticado no Estado, serve de suporte teórico para futuros estudos e promove, no mínimo, uma reflexão sobre o fazer jornalística da atualidade. Um breve resumo de cada estudo é apresentado em seguida. [1]

Navegando pelo ciberespaço regional

Falar em regionalismo no ciberespaço parece contradição, afinal, este se propõe a ser um território sem fronteiras. Mas com tantos assuntos a serem apurados, também nestes locais a mídia tem buscado uma segmentação de público. E quais são esses sítios de informação voltados especificamente para atender os interesses do internauta sul-mato-grossense? E mais, como é o gerenciamento da informação nestes locais? Questionamentos assim levaram Telarosi a assinar a dissertação “Gestão da informação no jornalismo on-line: estudo do portal Campo Grande News”, que oferece um amplo estudo do ciberespaço de Mato Grosso do Sul, desde o mapeamento de onde estão estes jornais virtuais até o modo de organização do trabalho na Redação, neste caso tendo como base o mais importante deles (maior e mais antigo) o CGNews.

Um dos pontos altos é a contextualização histórica que a pesquisa oferece do surgimento da mídia on-line em Mato Grosso do Sul. Conforme conta, o ambiente digital no Estado inicia-se em 1997, com a criação de uma versão on-line do jornal O Progresso, de Dourados. Em seguida, um ano depois, o jornal Correio do Estado também começa a transcrever seu modelo de papel na rede. Em 1999 surge o primeiro jornal sul-mato-grossense com conteúdo exclusivo para a internet, o Campo Grande News, que inicialmente funcionava das 7 às 19 horas; chegou a ficar 24 horas no ar, e hoje encerra o expediente à meia noite para iniciar uma nova empreitada às 6 horas do dia seguinte. Também em 99, conforme este estudo, o impresso Primeira Hora investe no espaço virtual.

Ainda, em 1999, é disponibilizada mais uma versão do impresso no ambiente on-line, o site do jornal A Folha do Povo é criado com 20% de cópia de conteúdo. E, em 2000, surge o site vinculado à Assessoria de Comunicação do Governo de Mato Grosso do Sul. (TELAROSI, 2007: 98).

Depois de apresentar um pouco da história da Internet regional, a pesquisa detalha o levantamento feito sobre os sites noticiosos em todo o Estado. A proposta é conhecer os portais, de pequeno a médio porte, que estão disponíveis nos 72 municípios de Mato Grosso do Sul. Para o estudo foram selecionados apenas os meios exclusivamente virtuais, de conteúdo noticioso e que não fossem segmentados. O resultado indica 30 cidades como sedes de portais jornalísticos com estas características, além de três modelos focados em informações globais e não apenas do município. Só em Campo Grande estão oito destes sites. Em seguida vem Dourados, onde se encontram seis[2].

Além do mapeamento, para conhecer o modelo de gestão da informação no Campo Grande News, e que serve de base para entender o funcionamento de jornais na Internet com propostas semelhantes, Telarosi apresenta entrevistas com o proprietário do site, Lucimar Couto; o webmaster, Adriano Hanny; a chefe de Redação, Maristela Brunneto; e a repórter Aline Queiroz. Por meio destas entrevistas a autora organiza um modelo padrão de como o webjornal preparar seu dia-a-dia, como gere os assuntos à serem noticiados e como distribui as funções. Para este levantamento traça aspectos bem completos, como a autora explica (2007:107):

 

Planejamento:

1) Visão e identificação do portal como modelo de negócios.

2) Identificação do tipo (local, nacional e internacional) das notícias a serem publicadas.

3) Estrutura física do portal.

4) Gestores da informação.

Comunicação:

1) Captação, processamento, armazenamento e disseminação da informação (notícia).

Tecnologia:

1) design do site noticioso..

2) potencialidades da rede (hipertexto, multimídia, atualização, interatividade, personalização e memória) para publicação de informações (notícias).

Por meio destas entrevistas é possível conhecer vários detalhes de como é dia-a-dia num site: semelhanças e diferenças com outros modelos de gerenciar a informação, o que pode ser mais bem explorado dentro desta engrenagem e o que vem dando certo. Entre os apontamentos, uma modificação significativa, conforme a autora, é sobre a autoria da notas, principalmente por conta da apuração contínua, ou seja, o repórter pode começar investigando um assunto que será finalizado pelo colega.

Outra novidade apresentada foi quanto à redação de uma notícia que está em andamento, o repórter não precisa finalizá-la se seu turno acabou, pois o colega que assume o plantão fica responsável por acompanhar o caso e ir atualizando ao longo do dia as informações. (Idem, 2007: 137)

A pesquisadora conclui, por fim, que, apesar de algumas limitações, principalmente na exploração de recursos digitais, como o uso de infográficos, meios audiovisuais e a personalização da página, os portais locais, representados neste levantamento pelo Campo Grande News, têm conquistado leitores e expandido o mercado com sucesso.

 

Leitor conhecido e exigente

Uma vez conhecido o espaço virtual onde estão inseridos os jornais produzidos pela imprensa local e o modo como se organizam, para atender seu ciberleitor resta saber quais os seus interesses. Na verdade, conforme aponta Reino (2006), investigar a expectativa do internauta vai além da vontade do jornal de criar uma linha editorial mais afinada ao interesse do leitor, é uma questão de sobrevivência do próprio veículo, que com o mercado virtual amplificou em escala gigantesca o número de concorrentes.

Entender o leitor é uma questão de importância econômica, diretamente ligado ao lucro do jornal, mas também complexa, sendo preciso analisar o tipo de relação existente entre o produtor da informação jornalística e o leitor do jornal ou web jornal” (REINO, 2006:11).

Assim, em “Relacionamento entre o webjornal Campo Grande News e os seus usuários”, Reino traça o perfil dos leitores do Campo Grande News, entrevista os produtores da informação e a partir destes dados faz alguns apontamentos que justificam o investimento no setor de relações. Conforme explicita na dissertação, a pergunta a ser respondida é: Como é o uso das tecnologias no relacionamento entre o produtor de informação jornalística e os leitores dessa informação?

O resultado desta indagação é a descrição detalhada do perfil de leitor do Campo Grande News, e do modo como ele faz uso do webjornal. A dissertação traz ainda a apresentação de quem produz a notícia neste veículo e identifica as tecnologias usadas para promover a integração entre quem produz o conteúdo e quem o consome. Nesta fase Reino entrevistou os jornalistas Paulo Fernandes, Inara Silva, Fernanda Mathias e Leandro Calixto; o webmaster Adriano Hany; a editora Maristela Brunetto e o diretor-editor Lucimar Couto.

Mas o diferencial mesmo deste estudo está em mostrar a “cara” deste ciberleitor. Novidade porque o próprio jornal não tinha feito, até aquele momento, nenhum outro estudo para conhecer a figura do outro lado da rede. O levantamento, resultado de uma enquête disponibilizada no próprio site, é cheio de curiosidades, tanto para quem se dedica ao estudo das novas tecnologias, quanto para quem trabalha com ela, porque faz alguns apontamentos interessantes, como: de onde as pessoas costumam acessar o site e os horário que costumam navegar. O estudo mostra também como ficaram sabendo portal, porque acessam o Campo Grande News, e se há algum colunista que chama atenção no veículo. Também apresenta quais são as seções que mais interessam, quais faltam, a freqüência de acesso, os hábitos de leitura, os serviços utilizados… enfim, não caberia aqui uma explanação de todos os dados levantados, já que o estudo completo está disponível na internet, mas algumas particularidades foram selecionadas para antecipar detalhes que já apontam quem é o internauta sul-mato-grossense, em particular o de Campo Grande.

Conforme Reino (2006), o CGNews recebia no ano do levantamento 620 mil acesso por mês, em média, 20 mil por dia. Participaram do levantamento 204 internautas, o que assegura à pesquisa uma margem de erro de no máximo 7%. As mudanças que o site sofreu nesses dez anos foram, conforme os dados obtidos durante as entrevistas, “acontecendo de forma natural”, ou seja, não havia uma averiguação anterior que oferecesse um suporte, de base confiável, para investimentos futuros ou que conhecesse profundamente o que internauta espera do seu webjornal. “As mudanças foram surgindo a partir das sugestões do pessoal da área de informática, dos leitores e de mudanças observadas em outros sites de notícias” (Reino: 53).

Depois da dissertação de Reino foi possível saber, por exemplo, que o leitor do Campo Grande News é jovem e com certo grau de escolaridade: 57,9% está na faixa entre 20 e 29 anos; 20,4%, entre 30 e 39 anos, sendo este o segundo maior grupo das faixas etárias. Destes leitores, 94,5% têm, pelo menos, o Ensino Médio completo e a maior parte reside tem Campo Grande. Ainda pelo levantamento fica-se sabendo que os dias de semana são os momentos de maior audiência, sendo que a maioria deles, 43,2%, costuma acessar o site de segunda a sexta-feira.

Dos que responderam a enquête proposta neste levantamento, 56,1% costumam navegar no webjornal de duas a cinco vezes por dia e por razões bem parecidas, a grande maioria, 78,2 %, quer ficar informada sobre o que acontece no município e no Estado; apenas 14,5 % acessa porque é uma exigência do trabalho. O estudo mostrou também que o conteúdo informativo é o que realmente atrai pessoas à página, inclusive mostrou que leitor não é fiel a nenhum colunista, sendo que muitos, sequer, tinham lido uma única vez essas colunas de opinião.

Outro dado que se sobressai é sobre o que essas pessoas que costumam ler o site gostariam de encontrar ali. Entre as sugestões apresentadas estão a criação de cinco novas editoria: informática, universitários, mundo, espaço jovem e educação. Apontaram também para investimentos em charges, seções de humor, entretenimento, horóscopo, coluna de tendências da moda, coluna social e sala de bate papo. No setor de serviços gostariam de encontrar o mapa da cidade, telefones úteis, etc. O estudo tem muito mais riqueza de detalhes, traz, por exemplo, a visão do leitor sobre a qualidade do material disponível. Pela enquête o internauta sugeriu, entre outras coisas, que houvesse um revisor de textos, que a matéria fosse mais contextualizada, inclusive com mais imagens, enfim, apontamentos do modo de produção.

O terceiro ponto talvez seja o mais sensível, pois muitos leitores pediram mudanças no tipo de jornalismo praticado. A editora do site, Maristela Brunetto, em entrevista ao pesquisador, afirmou que muitos e-mails que à redação são para solicitar correção gramatical dos textos do site, apesar de a maioria serem erros de digitação (REINO, 2006: 77)

Outras respostas, conforme o estudo, indicaram que as matérias deveriam ter “maior apuração”, “mais cuidado ao checar”, “desdobramento” etc. Essas críticas, contribuem muito para entender esse leitor, seja para o Campo Grande News ou, para outras investidas na área já que demonstram que o leitor quer, mais do que agilidade – em nenhum momento isso foi apontando como prioritário –, saber das coisas de maneira consistente e aprofundada.

A vez das fontes

Outro estudo sobre o site não trata especificamente do leitor, mas sim das fontes, pessoas que geram as notícias por meio de suas opiniões, histórias de vida, levantamentos ou do papel social que desempenham. Trata-se do estudo “A comunicação da informação jornalística no telejornalismo online: TV News”, de Ribeiro (2006). Além de dar voz aos entrevistados, este estudo discute uma característica típica do novo meio: a mescla de linguagens.

Para estudar as características deste formato, cada vez mais comuns nos grandes portais, ele analisou a TV News, um canal de entrevistas que reúne a produção audiovisual e o texto escrito no site Campo Grande News. O programa, que entrou no ar em 2005, deixou de ser veiculado no site em dezembro de 2006, conforme informações do web máster do site, Adriano Hanny, mas o recorte continua atual uma vez que o modelo foi muito bem recebido por leitores e fontes e é uma tendência no suporte cibernético.

O foco primeiro desta sondagem é entender o processo de comunicação neste formato – que agrega linguagens de Imagem, Áudio e Texto – e oferecer uma reflexão sobre sua aplicação por meio do depoimento dos profissionais envolvidos com a informação.

A Internet abre, assim, as possibilidades para o telespectador/internauta seja

o dono de uma emissora de TV. Ele vai se tornar operador, programador, ideólogo e editor-chefe do conteúdo do canal de TV. Tudo graças a celulares que gravam imagens, ilhas de edição digitais instaladas no PC, entre outros equipamentos que ficam, cada vez mais, acessíveis aos olhos e bolsos (RIBEIRO, 2006: 17).

 

Além disso, a dissertação se propõe conhecer a avaliação do entrevistado sobre o produto final e, com tudo isso, compreender um pouco mais das mudanças que o jornalismo digital gera na sociedade e na própria mídia. Na primeira etapa do levantamento, para entender o produto, o recorte inclui análise da entrevistas publicadas no período de 14 de março de 2005 a 15 de março de 2006. O foco foram os jornalistas envolvidos no processo – o diretor e editor do site, a chefe de redação e entrevistadora e o ex-chefe de redação e entrevistador.

Além destes, para ter uma visão mais aprofundada do modo de produção e gerenciamento da informação, foram ouvidos o webmaster e o diretor da produtora de vídeo, Morena Vídeo, parceira do site no projeto do TV News. Como a implantação da TV no site alterou o modo de produção e a rotina dos jornalistas, o estudo buscou descrever toda a organização do trabalho, da escolha da pauta ao perfil dos entrevistados. Por fim, ouviu as fontes e como elas interagiram com a nova tecnologia. Do total de 15 entrevistas disponibilizadas à TV News neste período, 6 foram selecionadas para este estudo.

No caso das fontes, os entrevistados do TV News, foram selecionadas seis pessoas, de acordo com critérios que variaram entre o número de entrevistas dadas, a relevância jornalística do assunto, o cargo na administração pública municipal e estadual e dicas da jornalista responsável (Idem, 2006: 24)

A pesquisa reconta toda a história da implantação da TV, inicialmente pensada para produção de reportagens e adaptada para o modelo de entrevistas por questões técnicas e financeiras. No modelo eram gravadas entrevistas semanais e transcritas depois para leitura, oferecendo ao leitor a possibilidade de escolher o modelo que mais lhe agradasse.

Apesar da parceria com a produtora Morena Vídeo, conforme aponta o estudo, toda a produção, enfoque e questionamentos da entrevista ficava a cargo do site, que cuidava das questões editoriais. E, apesar da TV não estar mais no ar hoje, o estudo mostra que ela estava em sintonia com as tendências nacionais de produção do ciberjornal.

Conforme conta Ribeiro (2006:33), toda a estrutura foi pensada “a partir de experiências do mercado com sites como UOL e Terra”. Inclusive o projeto tentava atender todo o tipo de leitor, os que dispunham de equipamento mais avançado, com placa de som, por exemplo, e que poderiam assistir a entrevista em vídeo; e os que usavam um equipamento menos potente, e que por esta razão teriam acesso ao conteúdo no formato de texto e fotografia. Nas entrevistas disponíveis na dissertação, fica clara a intenção dos diretores do projeto em transformar a TV News num canal de televisão mais amplo, para transmitir solenidades, ao vivo, pronunciamentos etc.

A pesquisa também mostrou os bastidores, a organização do trabalho para que as entrevistas fossem finalizadas, desde o local onde aconteciam à relação com os entrevistados. Inclusive, conforme o estudo, o projeto dava tão certo que servia de pauta para outros veículos e a redação do CG News recebia dezenas de sugestões de novos entrevistados, até mesmo de pessoas que pediam para ser convidadas, o que mostra a visibilidade do projeto. Além disso, como requeria mais tempo de produção para ser produzido e inserido no site, o modelo se mostrava muito mais aprofundado e isso tinha bons resultados. “Numa análise geral, a entrevista realizada para o TV News, gerou comentários positivos das fontes” (Ribeiro, 2006: 61).

É verdade que esta tecnologia inda estava descobrindo uma linguagem própria, mas sua implementação mostrou que a imprensa regional vinha acompanhando as inovações pelas quais a mídia nacional antecipava. De um modo geral pode-se dizer que a experiência com o modelo representou uma inovação no jornalismo regional e serve de parâmetro para qualquer outra investida neste setor. Tanto para os produtores, quanto para fontes, a TV News foi vista como “novidade”. Por fim, vale dizer o estudo contribuiu para registrar um fenômeno recente do jornalismo sul-mato-grossense: o telejornalismo on-line.

 

Tempo como marca

Outros dois estudos focados no site atentam para uma característica marcante do modelo digital: o curto tempo para apuração e inserção do material produzido. Na pesquisa “Em tempo (quase) real: análise semiótica do jornalismo na web”, Bueno (2007) demonstra como esse fator pode prejudicar a credibilidade que o jornalismo desfruta, principalmente com coberturas de crise. Este estudo é dividido em duas etapas, na primeira aponta algumas estratégias de construção de sentido usadas por esses jornais virtuais para garantir o efeito de tempo real em suas coberturas. Nesta primeira fase mostra alguns recursos de linguagem, nos títulos e no próprio corpo da matéria, que garantem ao internauta a sensação de estar atualizado mesmo quando o site insere uma nota com minutos de atraso com relação ao concorrente.

Já na segunda etapa a meta é mostrar como a busca pelo tempo real pode contradizer algumas premissas básicas do jornalismo, como não noticiar o que não se tem certeza, oferecer uma contextualização histórica e social daquilo que está sendo divulgado, ouvir todos os envolvidos no acontecimento reportado entre outros pressupostos que o acompanhavam até então, em outros suportes. Para demonstrar estas hipóteses o recorte inclui a cobertura das rebeliões provocadas pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) nos dias 13, 14 e 15 de maio de 2006, no site Campo Grande News.

Bueno lembra que, embora a imprensa seja alvo de críticas, não se deve desconsiderar que com falhas ou não os meios de comunicação ainda são o porta-voz e, muitas vezes, a única opção de acesso a certas informações que a grande massa da população tem ao seu alcance.

Com tamanha responsabilidade, o jornalismo precisa todos os dias aprimorar suas ferramentas de transmissão. Do ponto de vista tecnológico isso tem sido feito. Um bom exemplo são os sites de notícia, veículos dinâmicos, que quebram fronteiras e alcançam proporções inimagináveis antes de sua descoberta. No entanto, na mesma proporção que supera fronteiras e destaca-se pela capacidade de oferecer com grande rapidez assuntos variados e diferentes enfoques para uma parcela cada vez maior de leitores, surge a dúvida: qual o preço de chegar antes?” (BUENO, 2007:11)

No somatório dos três dias que compõem a cobertura – 13, 14 e 15 de maio de 2006 – o CGNews publicou 108 notas sobre o tema, sendo 6 no dia 13 de maio, quando apenas especulava-se sobre a ação; 52 no dia da ação propriamente dita, 14 de maio; e 50 no dia seguinte, quando a polícia conseguiu controlar a rebelião. O assunto recebeu atenção de aproximadamente 95% do jornal no dia se comparado à média diária de publicação. Para entender a influencia do tempo da produção, foram investigadas, entre outras coisas, os tipos de fonte entrevistadas, o uso ou não de citações e fotografias, e a antecipação dos fatos em três momentos, a participação do PCC, o número de mortos e o nome do preso decapitado.

Em geral as matérias de jornalismo não se originam da observação direta dos jornalistas; na maior parte das vezes essas informações chegam aos repórteres e editores por pessoas de outras áreas, que testemunham ou integram esses acontecimentos. Como precisa suprir as necessidades do leitor em conhecer mais e mais novidades, talvez até mais rápido do que acontece esta cobertura trouxe 33% do material de notas só com a descrição do repórter, criou também um modelo de entrevistado classificado no estudo como Fonte Generalizante, que não tinha nome e sobrenome, mas era tomada como um todo coletivo, como “familiares de presos”, “agentes”, enfim, sem uma materialidade física que lhe afiançasse confiança. Neste modelo ficaram 14% da cobertura.

Uma fonte Oficiosa ou Generalizante não assegura, do ponto de vista da construção de enunciados, a “realidade” do texto porque não pode ser materializada, como uma fonte oficial, por exemplo, que traz, juntamente com a informação, a sua origem, seja o comandante da PM, seja o presidente do Sindicato, com nome e função. Se o enunciatário não consegue identificar os interlocutores da ação, o texto compromete sua capacidade de parecer real. (BUENO, 2007: 97)

Outro recurso que garante o sentido de realidade ao texto é o uso de citação. Nesta cobertura 91% das matérias não trouxeram citação das fontes, apenas 9 delas fizeram uso deste recurso. Além dos demarcadores lingüísticos, outro recurso que delega ao texto um efeito realista é o uso de fotografias. No entanto, o CGNews inseriu fotografias em apenas 29 notas, ou seja, 27% da sua cobertura contou com o recurso imagético. Numa cobertura descritiva, a fotografia seria mais um argumento de realidade, já que esta foi comprometida na escolha das fontes e no limitado uso de citações.

A análise também verificou as marcas de veridicção, que seria a capacidade do jornal em manter a coerência do seu texto no conjunto da cobertura. Ao todo foram escolhidos três recortes: ligação da rebelião com o PCC, que é apontado como o grande articulador das rebeliões e, portanto, o actante principal; existência ou não de mortos, já que este foi o assunto mais discutido no conjunto de notas publicadas; e identificação do preso decapitado, uma vez que esta notícia foi a mais impactantes. Os três apresentaram resultados parecidos, mas o número de mortos foi o mais evidente. Do total da cobertura 40% das notas trataram do tema número de mortos no título, o que confirmou, conforme o estudo, a importância dada ao tema. No entanto a cobertura foi se contradizendo nos números, conforme mostra o quadro:

 

Exemplo:

Números de mortes divulgadas no CGNews

Dia 14 de maio de 2006
Horário da nota Número anunciado de mortes
12h01 Suspeita de um ferido
12h32 Existem mortos
12h42 São 6 mortos
12h50 Não há mortos
13h23 São 4 mortos
19h21 Não há mortos
Dia 15 de maio de 2006
Horário da nota Número anunciado anunciado
02h05 São 2 mortos
05h48 Há um morto
07h30 Pelo menos 3 mortos
08h10 São 4 mortos
11h21 Apenas um morto
13h30 Mais um decapitado (2)
20h46 Confirmada uma morte

 

 

Enfim, depois de ter anunciado seis mortes no início da cobertura, e uma seqüência de terror que oscilava entre esses valores, o site termina a apuração com o dado oficial de um assassinato. A última nota sequer faz referência, para justificar, às notas anteriores. No fim da noite do dia 15, em nota não assinada – Indústria de Boatos (23h00) – o jornal assume que a cobertura ficou comprometida. O comentário, de sete linhas, não criticava a postura do jornal, mas tentava justificar os equívocos.

De uma maneira geral pode-se dizer que toda esta cobertura ficou entre a precisão e a dúvida. O recorte não é uma crítica ao Campo Grande News, mas mostra-se como uma reflexão sobre a necessidade de atualização instantânea do modelo de ciberjornalismo, principalmente em coberturas em tempo real.

 

Não se trata de mostrar aqui o potencial analítico do jornalismo impresso ou de veículos mais lentos, mas o que parece lógico é que o ineditismo e a agilidade devem manter, ainda que para isso tenham de publicar informações com minutos de atraso, os mesmos compromissos com a responsabilidade social daquilo que anunciam (BUENO, 2007: 128)

Plágio como marca

Outro estudo que é marcado também pela exigência do tempo é o assinado por Maciel (2006). A dissertação intitulada “Jornalismo Control c/ Control v: Uso do release na comunicação da informação on-line” faz um levantamento da cópia, parcial ou total, dos releases – textos das assessorias de imprensa e que deveriam ser usados como uma sugestão de pauta – pelos jornais on-line de Campo Grande. O estudo mostra, entre outras coisas, que a exigência de uma apuração meteórica faz com que muitos jornalistas acabem apenas editando o material recebido, sem uma apuração mais detalhada, para dar conta de cumprir a meta de produção.

Maciel analisa o uso de releases na íntegra ou parcialmente copiados pelos sites de notícias Campo Grande News, MidiaMaxNew e MSNotícias, das produções oferecidas em forma de release pela equipe de assessores de imprensa e publicadas no site oficial do governo de José Orcirio Miranda dos Santos, a Agência Popular de Notícias. A proposta do estudo foi detectar a ocorrência de cópia deste material pelo sites da Capital e identificar, com os profissionais de Redação, as razões para seu uso.

Os releases estariam sendo utilizados, portanto, como uma das fontes de informação, quando, por respeito ao leitor que lê a notícia no site, seria preciso checar a veracidade do seu conteúdo e confrontar a informação oficial neles contida com a de outras fontes” (pagina 2).

Depois de contextualizar sobre a função do release e as exigências do mercado com relação à apuração meteórica, foi possível, a partir de um critério de análise quantitativa dos dados, mensurar quantos desses documentos foram copiados na íntegra pelos jornalistas, quantos foram parcialmente modificados e quantos destes foram utilizados apenas como sugestão para a produção de uma nova reportagem.

Trabalhando em condições de pressão, segundo a qual cada notícia deve

ser publicada em um espaço de tempo não superior a dez minutos, a equipe dos sites objetos desse estudo, http://www.campogrande.com,

http://www.midiamax.com.br e http://www.msnoticias.com.br tem poucas

possibilidades temporais para apurar as informações. Realidade que os leva,

muitas vezes, a reproduzir parte do conteúdo do release original, adaptando-o ao formato mais enxuto de notícia on-line, ou, até mesmo, a copiá-lo na íntegra, quebrando esse padrão consagrado pelo uso. (MACIEL, 2006: 9)

Para chegar a estas conclusões foram analisadas todas as notas disponibilizadas na Agência Popular entre os dias 23 a 29 de janeiro de 2006, quando o então governador retornava de um recesso de 15 dias; e também entre os dias 6 e 10 de fevereiro, quando, conforme justifica o pesquisador, seria um momento de grande fluxo de matéria, já que era o início do planejamento das ações dos secretários de governo. Além da contagem de todos os releases produzidos pelos assessores e publicados na agência, foram captadas as reportagens que tiveram esses textos como base nos três sites da grande imprensa. O estudo ainda ouviu dois jornalistas do Campo Grande News, o editor do MS Notícias, e dois repórteres do Mídia Max News. Três assessores do governo e subsecretário de Comunicação também foram entrevistados. Os nomes foram mantidos em sigilo.

Pelo levantamento, nas três semanas de pesquisa, a agência publicou 261 matérias em forma de release, sendo 75 em janeiro, 94 em fevereiro e 92 em março. A grande maioria dos textos eram reportagens bem grandes, com pelo menos três parágrafos. Boa parte destes textos foram assinados pelo jornalista. Na avaliação de Maciel, dos três sites analisados, o CGNews foi o que teve menor índice de cópia do release. Em primeiro lugar ficou o MSNotícias, seguido do MídiaMax, este com uma peculiaridade de assinar com a incógnita “da Redação” os textos copiados. Só para se ter uma idéia, na primeira semana de avaliação o MS Notícias aproveitou 71% dos releseas disponibilizados pela agência do governo, destes, 100% foram publicados na íntegra; já o Midiamax usou 56% do material disponível, sendo que destes, 52% foram cópias idênticas; no mesmo período o Campo Grande News aproveitou 64% das notas da assessoria do governo, e 8% foram copiadas integralmente. Também foi o veículo que mais usou este material como uma sugestão de reportagem, buscando, a partir dele, informações com outras fontes, além das oficiais, para aprofundar a matéria.

Nos poucos casos em que foram detectadas as cópias na íntegra nas três semanas de pesquisa elas apareceram assinadas, em sua maioria, como se fossem escritas pelo repórter copiador do site, o que configura plágio. No entanto, em alguns casos de cópia na íntegra, optou-se por citar em algum momento do texto a frase “segundo informações da APN” quase que como um pedido irônico de desculpas pela apropriação do texto de um colega jornalista que, para piorar, em geral assina a matéria na assessoria (65)

A outra etapa da pesquisa ouviu os produtores da notícia, tanto dos sites quanto da agência e mostrou opiniões bem distintas entre repórteres que atuam no mesmo suporte, sobre que tipo de tratamento dar ao material vindo das assessorias e até mesmo quanto à cobrança de tempo de produção. Na última etapa, já com o resultado do estudo, a pesquisa ouviu os envolvidos que avaliaram os dados.

As principais razões apontadas para o declínio da prática de checagem da informação e da compreensão do release apenas como o ponto de partida para a busca de informações são, na opinião dos entrevistados, a pressão do tempo e a lógica de produção das redações, aliada à uma certa falta de estrutura para cobrir muitos eventos in loco. Mas, principalmente, uma questão de caráter e ética pessoal do repórter que copia o release original” (MACIEL, 2006: 103).

 

 

Encontre estes trabalhos na íntegra na internet

 

Título: Jornalismo Control c/ Control v/: Uso do release na comunicação da informação on-line.

Autor: Alexandre Zárate Maciel

Orientador: Dr. Antonio Lisboa Carvalho de Miranda

Instituição: Uniderp-UNB/2006

Programa: Mestrado em Teoria da Informação, Área de Concentração: Transferência da Informação. Linha de Pesquisa: Comunicação da Informação.

Disponível: http://www.cid.unb.br/publico/setores/100/145/download/dissemestr.pdf

 

Título: A comunicação da informação jornalística no telejornalismo online: TV News.

Autor: Oswaldo Ribeiro da Silva

Orientador: Dr. Eron Brum

Instituição: Uniderp-UNB/2006

Programa: Mestrado em Teoria da Informação, Área de Concentração: Transferência da Informação. Linha de Pesquisa: Comunicação da Informação.

Disponível: http://www.cid.unb.br/publico/setores/100/145/download/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Oswaldo%20Ribeiro.PDF

 

Título: Relacionamento entre o webjornal Campo Grande News e os seus usuários.

Autor: Lucas Santiago Arraes Reino

Orientador: Dra. Sueli Angélica do Amaral

Instituição: Uniderp-UNB/2006

Programa: Mestrado em Teoria da Informação, Área de Concentração: Transferência da Informação. Linha de Pesquisa: Gestão da Informação e do Conhecimento.

Disponível: http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=631

 

Título: Gestão da informação no jornalismo on-line: estudo do portal Campo Grande News

Autor: Taís Marina Tellaroli

Orientador: Dra. Sueli Angélica do Amaral

Instituição: Unesp/2007

Programa: Mestrado em Comunicação, Área de Concentração: Comunicação Midiática. Linha de Pesquisa: Gestão da Informação.

Disponível: http://www.faac.unesp.br/posgraduacao/comunicacao/disserta.php#tais

 

Título: Em tempo (quase) real: Análise semiótica do jornalismo na web

Autor: Thaísa Bueno

Orientador: Drª. Rita de Cássia Pacheco Limberti.

Instituição: UFMS/2007

Programa: Mestrado em Letras, Área de Concentração: Estudos Lingüísticos. Linha de Pesquisa: Semiótica.

Disponível: http://www.cbc.ufms.br/tedesimplificado/tde_arquivos/13/TDE-2008-04-03T072139Z-182/Publico/Thaisa%20CPTL.pdf

 

Título: A fragmentação da informação e a construção do sentido: um estudo de caso do jornalismo on line

Autor: Rosane Amadori

Orientador: Drª. Maria Gomes

Instituição: UFMS/em andamento- previsão de defesa…

Programa: Mestrado em Estudo de Linguagem; Área de Concentração: Linguística e Semiótica. Linha de Pesquisa: Produção de sentido no texto/dis

[1] Os trabalhos completos estão disponíveis na Internet. O endereço de acesso está nas páginas finais deste artigo.

[2] A lista completa dos portais está disponível no estudo da autora.